NOVO!
Eis que por motivo de força maior fui pra outro provedor. Dessa vez foi mesmo. Este blog se autodestruirá em três dias, contando a partir de amanhã. Cá está o novo endereço: http://www.mocacombrincodeperola.blogspot.com
Escrito por Moça às 00h31
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mais um dia.
Por mais que eu pense, que eu sinta, que eu fale, tem sempre alguma coisa por dizer.
Escrito por Moça às 23h30
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vou-me entupindo de potássio...
Num súbito ímpeto de guerra meus dedos se revoltaram contra minha falta de potássio e me atazanaram a vida e os movimentos. Cãimbra da boa. Cãimbra que eu nunca tinha tido. Depois do dia trabalhoso, magnífico, saudoso e em cima do salto, dá-lhe um repuxão bons de pés e pernas pra acordar. Parei no meio do ensaio, sentei chorando por dentro, por fora, por cima e por baixo. Me esticaram, puxaram, dobraram e assopraram. Me deram até água. (obrigada, muito obrigada. Não sei quem era o rapazinho da água, mas ta sempre lá). E aí, num esticão mais arretado passou. Tudo de uma vez. Levantei devagar. Voltei pro ensaio numa boa. Sambei, cirandei, calcei meu salto e voltei pra casa. Atenção devotada soou como drama mas pra quem nunca teve cãimbra na vida me saí bem. Vinte e dois anos sem repuxões estratégicos. Vitória de uma alimentação balanceada e exercício físico à rodo. Hoje, que não almoço direito, não tenho tempo de suar por aí e deixei de comer banana porque não faço mais supermercado, que venham as cãimbras náuticas, aéreas, terrenas, dorsais e monumentais. Meus pés viraram uma obra arquitetônica. Escrevendo esse desabafo brega e lúdico vou-me entupindo de potássio. Quem nunca teve uma cãimbra semimortal na vida que atire a primeira pedra. Ou então, que coma a primeira banana.
Escrito por Moça às 23h55
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figueira.
é meu pedaço de paraíso. Figueira plantada n'água salgada. Um céu inteiro pra cobrir. Pé na areia pra fugir da tristeza do lado de cá. (frase pra ser lida como legenda da foto que não consegui colocar aqui. Vou mudar de provedor. A foto virá.)
Escrito por Moça às 11h48
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duas cenas.
Cena I: Ela deitada na cama vendo documentário em preto e branco, comendo pipoca e chorando. Ele liga. Ela atende. Ela faz manha. Diz que não gosta de ficar sozinha. Que não quer ficar sozinha. Ele ri dela. Ela emburra. Ele fala. Fala. Fala. Conta história. Ela chora em silêncio (não dá pra ouvir pelo telefone) Ele fala do trabalho. Ela soluça em silêncio. Ele puxa assunto, pergunta do dia dela. Ela responde rápido, não quer contar história. Ele faz de tudo pra ela sorrir. Ela se esforça. Ele conta piada machista. Ela ri. Ele resolve e diz que a ama. Ela aceita e desliga o telefone. Ele desliga.Sabe que vai ficar tudo bem. Ela levanta, deixa muda a televisão. Liga o rádio e vai escrever. Ela sente a falta dele. Ela finge que agora está tudo bem. Ele sabe que tudo vai ficar bem. Ela também. Cena II: Ele vendo televisão. Ela liga. A mãe dele atende. Ela pede pra chamá-lo e agradece. Ele atende. Ela fala o que resolveu. Ele ri da manha dela. Ela fica brava. Ele muda de assunto. Fala de um livro que ganhou em 2004. Ela escuta. Ele fala mais. Conta história. Ela escuta, paciente. Gosta da voz dele. Ele acha que ela está emburrada porque está muda. Continua falando. Ela o interrompe e diz que vai desligar pra ficar com a mãe. Ele não gosta de ser interrompido. Etende que ela quer desligar. Ela se despede. Diz pra ele decidir. Ele diz que liga amanhã. Ele ri dela. Ela fica brava. Ele continua rindo. Ela diz que o ama. Ele diz que também. Ela desliga. Ele desliga. Ela corre pro colo da mãe. Ele aumenta o volume da televisão. Ela dorme e sonha com ele. Ele tem insônia e só pensa nela.
Escrito por Moça às 11h05
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rápido
Hoje ganhei um presente. No feriado ganhei uma nova pele. Ganhei ondas e uma promessa de um Janeiro febril. Êta vontade danada de escrever. Mas não dá tempo. Tenho que comer ainda. Tenho que dormir. Tenho que acordar, correr. Tenho que trabalhar. Tenho que viver. Não dá tempo. Não dá tempo. Tempo meu, estatela e me espera?
Escrito por Moça às 22h51
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Parô tristeza.
Parô Baco aiê Parô, vou atoar Parô Baco aiê Parô, vou avoar Num dia de amargura fui recebida ao som da zabumba por três cavaleiros atoadores. Aí ficou tudo bem. Depois, uma árvore foi armada e meu coração também.
Escrito por Moça às 11h31
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Pente.
Cabelo penteado com pente é outra coisa. Deixa rente. Na cabeça fica junto, sem colar fio, sem quebrar cacho, sem dar nó. Deixa quente repelente de arrepio, no corte frio, sarará bem feito arrego. Deixa grande fio curto, sem cutícula, couro liso, sem pereba, sem piolho, sem mobília. Vai descendo corda abaixo sem puxar, sem doer, sem melar na ponta do dente nú. Pente curto, pente reto, pente chato, pente longo que penteia qualquer ponta solta. Prende qualquer mecha louca. De touca, presente pro desarranjo. De peruca, passo para um arranque grosso. Arrebanha movimento seco, molhado, secado a ferro e fogo. Pente, tudo pela frente. Desembaraça a semente. Pente, mente pro penteado, na escova esquecido, no coque, amargurado. Pente pobre, pente rico. Pente assim e assado. Penteia pente em mim e depois reparte pro outro lado.
Escrito por Moça às 18h11
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verdade.
Saudade. Verdade. Peguei-me hoje tentando evitar esses momentos que tenho vivido nos últimos tempos. Sei que vai dar uma saudade danada. E saudade dói. Dói porque ninguém volta, né? 'Ah...to com saudade, vou lá de novo e daqui a pouco to de volta'. Não dá. Se fosse assim não seria. Se fosse assim nem seria. Verdade seja feita, tudo que deixa saudade cai bem. Caiu bem um dia. Fez rir, fez dançar, chorar, cumprir a profecia. Nada tétrico, medonho, traumático ou aterrorizante deixa saudade. Deixa rastro, marca. Saudade não. À vezes me parece que vem um vento de dentro do meu estômago assoprando tudo pra fora. O bom que guarda-se de vez em quando. Não perde-se nada assim de graça, à toa. Guarda-se tudo. Guarda-se a vida que vai se dando por aí sem nem se deixar notar. A gente não se deixa perceber. Tudo está nessa dimensão pra ser guardado. A certeza boa é que não é sempre que sai. Assim, sai da gente. Não é sempre que se deixa. Verdade. Mas aí quando sai já viu. Aí é saudade.
Escrito por Moça às 20h21
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flores.
O terreno em frente a minha casa está todo florido. É porque a chuva não acaba. Aqui dentro de mim está tudo muito florido. É porque faz tempo que não chove.
Escrito por Moça às 10h19
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os médicos
No quarto em torno do paciente, filhos e esposa esperam o doutor. Ele opera cedo, depois visita pacientes. Entra como um deus simpático e poderoso, jaleco condecorado com as insígnias do hospital famoso, bronzeado e sorridente. "Como vai nosso paciente?" Dormiu agitado, dor nas costas, alergia ao remédio. Belisca as bochechas do doente, "Mas está muito melhor, rosado, pressão normal e a temperatura baixou". Sorrisos reconfortados. O doutor apalpa e diz para a enfermeira: "Veja o que ele quer para almoço. Já pode comer com sal." Sai rápido, o filho mais velho atrás para saber a verdade na conversa do corredor- poucas chances de recuperação e sobrevida que não vale a pena. No hospital de excelência, os melhores médicos do mundo, os equipamentos mais modernos. Aqui o desafio é morrer. Ciência, equipamentos e drogas impedem que a morte chegue natural e humana. É atrasada inutilmente. Os filhos perdem pai, patrimônio e herança. A medicina desvendou um segredo proibido do qual não consegue se desvencilhar -vencer a morte sem recuperar a vida. No hospital público, o médico chegou atrasado, a fila era longa. O paciente entra, acabrunhado e zangado com a demora. Senta-se à frente da mesinha do doutor, de jaleco branco amarelado. O doutor parece cansado, enfrentou trânsito para vir do outro hospital, muito longe, cabelo despenteado, olhar distante e desesperado. "O senhor tomou o remédio que eu receitei?" Estava em falta, era caro, o hospital só recebe na semana que vem. Na semana que vem não consigo vir porque não tem ninguém para ficar com as crianças. É um caso fácil. Mas caro. Exige repouso, o sujeito tem família, não consegue internação, não pode pagar o tratamento que o governo não consegue dar para todo mundo. O médico examina, faz outra receita e pede novos exames e nova consulta, o que deve levar mais um mês. O médico sai correndo para outro hospital, tentando recompor a camada de indiferença e distância, perfurada por mais este caso, preparando-se para o próximo. Falta dinheiro para a vida aqui, sobra dinheiro para a morte lá. João Sayad (original Folha de São Paulo 16/10/06)
Escrito por Moça às 11h47
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ciranda noite e dia
 Oi ciranda êê já foi oi ciranda êê já foi Oi o peso dessa arte que eu carrego, eu não entrego, oi, eu não entrego. Passo o leme, choro fundo, grito alto, mas não nego, oi, mas não não nego. Essa alegria que pula lá no peito lava a mágoa descansada de algum jeito; de um canto (encanto) sujo, surjo imunda de sofrer.
Escrito por Moça às 19h05
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ora pérolas,

Não me amole. Não me deixe sozinha. Não me deixe à toa. Que eu saio por aí e junto todomundo em mim. E acumulo tudo assim. E rasgo meu verniz, arranho minha pose e vou-me embora pro mundo de uma vez. Não me faça graça. Não me pertube a cabeça. Não me peça perdão. Não me aborreça. Deixe que esqueço logo minha manha. Mas não deixe que me sufoque sozinha de novo. Que eu saio por aí e junto todomundo em mim. E acumulo tudo assim. E rasgo meu verniz, arranho minha pose e vou-me embora pro mundo de uma vez. Não ache graça. Minha ameaça procede. Minha calma padece. Minha vaidade grita. Deixe que calo uma hora. E logo deixo de lado minha cena. Mas não encare meu foco de banda. Não me deixe sozinha. Que eu saio por aí e junto todomundo em mim. E acumulo tudo assim. E rasgo meu verniz, arranho minha pose e vou-me embora pro mundo de uma vez. Que lá é o meu lugar. Não aqui. Não me deixe sozinha...
Escrito por Moça às 13h06
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O trem (parte 2)
Hoje, estranhamente me vi cercada na linha do trem. Tinha um já passando, quando a guarita apitou várias vezes tive que correr pra ficar no meio das trilhas. Dos trilhos. Havia uma distância considerável. O entre-trem. Um ia prum lado. O outro pro outro. Um ia embora. O outro chegava bem. Me senti por um instante parada no tempo. O vento ficou leve e vi tudo em câmara lenta, até parar. Milésimos de segundo. Como num filme sem cor. Nunca gostei de esperar o trem, mas se todas as vezes forem assim, posso passar a vida esperando ele passar. Esperando ele passar por mim.
Escrito por Moça às 17h15
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retalhos
Energia aos borbotões nos escapa pelas orelhas, fazendo tudo vibrar e espairecer no ar. E quem não come comé que fica? E quem não dorme? E quem não crê?
Escrito por Moça às 23h20
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